Quarta-feira, Janeiro 25, 2006

ANTÍGONA EXILADA - Paulo Ferreira da Cunha




Tactear timidamente o teu olhar cansado
Mas sempre atento e novo
Como água cantando em jovem fonte
O teu olhar doce e duro, e sapiente.
Cego tacteá-lo.

E saber de cor os sinuosos sulcos
Caminhos que o tempo desenhou
Nesse teu rosto,
Cartografia Caprichosa.

E embalar esse sorriso triste
Todavia ainda iluminado
À luz de cada ideia generosa.

E afagar os cabelos revoltos
Que são tuas serpentes
Soltadas aos ventos e aos poderes

Ah, não morreras tu
No dia do teu crime
Nesse heróico momento de revolta!

Creontes timoratos tua pena comutaram
Vale mais a morte que desterro eterno.
Crucificada estás para a História
A nossa tibieza é que te mata.
Lentamente te esvais
E a tua vitória só persiste
No coração dos que amam a Verdade

Para os demais, já nem sequer és linda
“Foi certamente bela um dia” – dirão outros.
A isto se resumira a sua filosofia
E a tal limitarão a tua história.

In Escadas do Liceu, VI - Ocasos.