Sexta-feira, Junho 30, 2006

DANÇARINA ESPANHOLA




Como um fósforo a arder antes que cresça
a flama, distendendo em raios brancos
suas línguas de luz, assim começa
e se alastra ao redor, ágil e ardente,
a dança em arco aos trêmulos arrancos.

E logo ela é só flama, inteiramente.

Com um olhar põe fogo nos cabelos
e com arte sutil dos tornozelos
incendeia também os seus vestidos
de onde, serpentes doidas, a rompê-los,
saltam os braços nus com estalidos.

Então como se fosse um feixe aceso,
colhe o fogo num gesto de desprezo,
atira-o bruscamente no tablado
e o contempla. Ei-lo ao rés do chão, irado,
a sustentar ainda a chama viva.
Mas ela, do alto, num leve sorriso
de saudação, erguendo a fronte altiva,
pisa-o com seu pequeno pé preciso.


Rainer Maria Rilke

3 comentários:

Victor disse...

Querida Yo. É sempre com agrado que vejo você postar, sempre com muito sentimento. Na dança do fogo me perco em erotismo e desejo. Beijinhos.

Raimundo Neto disse...

Poesia é difícil; é preciso preparação até pra ler.Sei lá, você transforma suas coisas simples numa das coisas mais encantadoras que existe!
Por isso que sempre dizendo que sou prosa que quer poesia!

Aspásia disse...

Como o nórdico Rilke conseguiu captar e transmitir-nos tão bem o fogo da Andaluzia... a poesia não tem a ver com a latitude.

Beijinhos ibéricos:)